Shizuyama Dōjō - A Montanha Silenciosa

O Coração do Aikidō

Morihei Ueshiba

“O coração do Aikidō é: verdadeira vitória é vitória sobre si, dia de instantânea vitória! Verdadeira vitória significa infinita coragem, vitória sobre si simboliza incansáveis esforços; e dia de instantânea vitória representa o glorioso momento do triunfo no aqui e no agora. … A verdadeira vitória … é atingir e eliminar o espírito da dúvida e do conflito que existe dentro de você. [Só assim] … você estará hábil a integrar os fatores interno e externo da prática, limpe seu caminho de obstáculos e purifique seus sentidos“.

Morihei Ueshiba (Ō-Sensei – fundador do Aikidō)

A palavra Aikidō (合気道) é composta por três ideogramas:

  • 合 — ai — (re)unido, unificado, combinado, ajuste;
  • 気 — ki — espírito, mente, energia, clima, ânimo, moral;
  • 道 —  — sentido, trajeto, caminho.

Como caminho de religação (o mesmo conceito do Yoga Milenar), seu fundamento embute o princípio da harmonia: seja harmonia interna, seja harmonia entre seus praticantes, seja entre estes e o universo que os rodeia. Como arte, as técnicas do Aikidō incorporam movimentos circulares e em espiral como uma forma de se entrar em harmonia com o diferente, seja no deslocamento do caminhar, seja nos movimentos de projeção ou imobilização do oponente: unir o material e o imaterial, corpo e espírito, o céu e a terra, numa verdadeira oração em movimento.

Stanley Pranin, em seu artigo intitulado “O Aikido  do Fundador Morihei Ueshiba”, traduzido por Jaqueline Sá Freire (Brazil Aikikai – Hikari Dojo – Rio de Janeiro), foca em momentos-chaves que ilustram os princípios dinâmicos demonstrados/criados pelo Fundador. Vamos aqui enfatizar alguns muito importantes como base imprescindível para o iniciante, sem esquecer que isso deve ser desenvolvido permanente por todo praticante.

Para isso, vamos abordar esse tema em duas categorias em separado, como princípios individuais e princípios coletivos: o caminhar em harmonia consigo mesmo e o caminhar em harmonia com o outro. Enquanto “caminhando consigo mesmo” temos o princípio do Tai Sabaki (体捌き): a consciência do próprio corpo como um fluxo que se expressa em movimento. Enquanto “caminhando com o outro” temos os princípios do Ma-Ai (間合) e do De-Ai (出合). Pensando em Ai (合) como harmonia, De-Ai seria o “tempo certo” e Ma-Ai o “espaço certo”. Vamos pensar juntos sobre esses princípios dinâmicos.

Tai Sabaki

Enquanto o termo em japonês tai (体) significa “corpo” ou “realidade”, o termo sabaki (捌き) significa algo como “manipulação”: pôr em funcionamento; utilizar, manejar com perícia. Isso nos leva a pensar na necessidade de algo como “autoconsciência corporal” ou “consciência da realidade” como princípio subjacente ao Tai Sabaki. Como “manejar com perícia” algo ou alguma coisa se não temos uma percepção consciente do mesmo?

Tai Sabaki inclui também o sentido do “corpo em movimento”: perceber e manejar com perícia os movimentos externos e internos do corpo. Ao iniciante na prática o foco é no movimento externo do corpo (do corpo na horizontal e na vertical, dos braços e mãos e das pernas e pés)… ao praticante experiente o movimento interno no corpo (fluxo cérebro-coração-intestino).

O Fundador era perito em determinar a forma do movimento de um possível atacante. Uma das maneiras como ele fazia isso era executando varias manobras com o corpo com um refinado sincronismo exatamente antes de um ataque. Ao usar movimentos para cima e para baixo, de um lado para o outro e deslizantes, ele conseguia fazer com que fosse virtualmente impossível que um atacante iniciasse um movimento agressivo de uma postura estável. A compostura mental do uke estaria perturbada através de tais movimentos que o levariam ao ponto em que ele perdia toda a vontade de atacar.
Às vezes o Fundador erguia os braços no alto ou saltava no ar ao se aproximar de seu parceiro, deixando-o completamente indefeso ao tentar em vão coordenar um ataque.

Stanley Pranin

Para nossa prática, vamos abordar os movimentos básicos do Aikidō:

  • Tsugui Achi: Avançar deslizando o pé dianteiro e mantendo-o à frente.
  • Okuri Achi Aproximar deslizando o pé traseiro e mantendo-o atrás.
  • Ayumi Achi: Deslocamento andando, deslizando um pé de cada vez.
  • Tenkai Achi: Girar o corpo sem dar passo. Pivô sobre os pés.
  • Kaiten Achi Omote: Avançar dando um passo com a perna de trás e girar o corpo executando o pivô sobre os pés (ayumi ashi +tenkai ashi).
  • Kaiten Achi Ura: Retroceder dando um passo coma perna da frente e girar o corpo executando o pivô sobre os pés (ayumi ashi +tenkai ashi).
  • Tenkan Achi: Girar o corpo utilizando o pé dianteiro como base (girar como um compasso).
  • Zenpo Ho Tenkan: Avançar dando um passo e girar o corpo utilizando o pé dianteiro como base (ayumi ashi + tenkan ashi).

Ma-Ai

Enquanto sujeitos sociais, ao mesmo tempo que oser humano precisa aprender o “caminhar consigo mesmo” ele precisa integrar esse movimento com o “caminhar com o outro”. Nesse caminhar, o primeiro princípio a ser aprendido é o do “espaço certo” entre si e os outros. Na vida transitamos muito entre os polos “andar sozinho” x “não ter espaço para si mesmo” desaprendemos a arte do diálogo e deixamos que o outro nos invada nosso espaço. Inexiste a consciência do que é nosso espaço social, nosso espaço pessoal e nosso espaço íntimo.

Como caminho da harmonia com o outro, o Aikidō busca o estar com o outro sem se deixar invadir pelo outro até que surja a consciência de que não há separação entre o outro e o Si mesmo. Ma-Ai é essa consciência de um espaço harmonioso entre o si e o outro em busca da consciência de sua verdade, de sua visão individual da realidade, integrando-a à minha num todo único e indivisível.

É um estado dinâmico onde o Tai Sabaki é posto em prática para que o praticante busque um vínculo com o outro de forma que esteja sempre em posição de empatia. É o exercitar de seus neurônios-espelho para que se inclua em si próprio o corpo, as emoções e a mente do outro. É mais do que uma “distância segura”: é uma sensação de pertencimento e de (re)-união. É impossível de se treinar sozinho… eu preciso do outro para isso!

Ma-Ai é a arte do encontro.

De-Ai

De-Ai é o tempo do encontro. Também;em diz respeito à conscientização da intenção do encontro, de quem inicia o movimento ao encontro, ao momento do encontro, ao momento da verdade: eu e o outro somos um só. Sua verdade, minha verdade e o terceiro incluído.

De-Ai é um caminho da consciência da dualidade à consciência não-dual. É somente nessa última, no estado de presença, que há a possibilidade real da antecipação do futuro. O conceito de De-Ai envolve os três tempos mentais:

  • Go No Sen: nas artes marciais é o “ataque posterior”, que envolve um movimento defensivo ou um contra-ataque em resposta a um ataque;
  • Sen no Sen: uma iniciativa defensiva lançada simultaneamente ao ataque do oponente; e
  • Sensen No Sen: uma iniciativa iniciada em antecipação a um ataque, num momento em que o oponente está inteiramente concentrado em seu ataque e, assim, psicologicamente além do ponto de onde poderia perceber qualquer outra coisa.

O mesmo espírito de defesa é o espírito de ataque. No Aikidō, como a arte da paz, perde-se até mesmo o espírito de defesa. Em uma entrevista de 1957, Ō-Sensei expressou esse conceito com estas palavras:

“Não é uma questão de ‘sensen no sen’ ou de ‘sen no sen’. Se eu tentasse colocar em palavras eu diria que você controla seu oponente sem tentar controlá-lo. Este é o estado da vitória contínua. Não existe qualquer idéia de vencer ou perder em relação a um oponente. Neste sentido, não existe um oponente no aikidō. E mesmo que você tenha um oponente, ele se torna uma parte de você, apenas um parceiro que você controla”.

Assim, também não há mais o si e o outro. O outro sou eu mesmo e “controlar o outro” é “controlar a si mesmo”… Conhece-te a si mesmo

Presença

Peter  Senge (2007, pág. 90) nos traz essa nova perspectiva através da Teoria do “U” de Claus Otto Scharmer (http://www.ottoscharmer.com). Precisamos “aprender a ver”, calando aquela voz do julgamento que sufoca a percepção e a criatividade individual e a de grupos:

  • O saber deixar em repouso – o suspender pessoal  como um Trabalho Interior;
  • O suspender em conjunto  e construir Espaços Receptivos;
  • A coragem de ver o Novo  – pois pressupostos inabaláveis podem ser postos em questão.

Quase sempre, com a suspensão nada acontece de imediato e é essencial que saibamos tolerar esse “nada”, em nosso silêncio. É nesse “suspender”, provocado pelo silêncio de nossa voz do julgamento, que estamos prontos para “redirecionar” quando o novo surge, aperfeiçoando nossa percepção. Para isso é fundamental:

  • Tolerar que nada aconteça para que algo emirja;
    • Manter a empatia;
    • Dissolver fronteiras entre quem vê e o que é visto;
    • Promover um senso de conexão;
    • Abrir-se a mudanças…; e
  • Quando surgirem novos eventos, conteúdos ou padrões:
    • Redirecionar à nova fonte.

Somente assim, o que parecia fixo ou rígido passa a parecer dinâmico. Substituindo o observar pelo sentir , é assim que a Teoria do “U” se nos apresenta:

  • Distanciar-se do problema;
  • Evitar reações automáticas;
  • Observar… observar… observar;
  • Não agir por dedução, mas por um sentimento interior que vai fazendo sentido à medida que você avança; e
  • Não pensar, mas se “fundir” com a situação…

Sentir – Presenciar – Concretizar

  • Sentir : reunir informação a partir do interior de uma situação ou fenômeno e não recuperar informação a partir de nossos modelos mentais – não deixar a mente ver o passado – não confirmar ‘a priori’  nossos postulados preexistentes;
  • Presenciar : conexão com a criatividade, com o saber interior – “não há tomada de decisão, mas o que tem que ser feito torna-se óbvio”  e o que se alcança “depende de onde você parte e de que é como pessoa” ; ver a partir de uma fonte mais profunda e fazer-se veículo para essa fonte;
  • Concretizar : trazer algo de novo à realidade, provindo de uma fonte mais profunda que a mente racional.

Referências:

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